A CASTRAÇÃO
Acordei de um pesadelo em que meu pai me batia. Parece que meu inconsciente está me punindo por fazer coisas ruins. Porque faço coisas ruins o tempo todo. Minto o tempo todo.
Quer ouvir a última? Fui num congresso de psicanalistas e fingi para todo mundo que era psicanalista. Passei cerca de quatro horas fingindo ser quem não sou, troquei contatos, bebi drinks com o pessoal e saí de lá com uma doutora de nome qualquer. Enquanto fodia, perguntei se ela gostava de ser tratada como uma criancinha, e ela gemeu uns dois tons acima, pedindo para não machucá-la. Mas é claro que eu jamais machucaria ela: sou um papai tão bonzinho. Eu só quero foder a bucetinha dela e depois evaporar, como todo papai que se preze. Mas chego em casa, e adivinha: mensagem dela, perguntando se cheguei bem, se o transporte coletivo estava cheio, que ela ainda estava chegando em casa, etc.
Ignoro tudo, e vou tomar um banho pensando que hoje vou ter que beber. O que será que desejo anestesiar em mim, para ter que me drogar todo fim de dia? Passei três dias, três míseros dias, sem meia garrafa de cachaça, e parece que tem um lobo uivando dentro de mim, à espreita de qualquer deslize para poder me matar. Bebo a cachaça, ou então fumo maconha em quantidades estratosféricas, e só assim o lobo se cala. Assim consigo ser um ser humano normal, como todos os outros, por pelo menos algumas horas. Apenas o suficiente para ser um cara divertido, agradável, ou então, para tentar dormir uma noite sem perder o sono, e acordar com o estômago revirando, me devorando de dentro para fora com seus banhos de ácido, e meu corpo implorando chá de espinheira santa ou bicarbonato de cálcio para fazê-lo parar.
Isso que queima em mim é culpa? Isso que me devora é a lembrança de ter roubado dinheiro da bolsa de minha mãe para ir numa festa, ou ter empurrado meu irmão de cabeça no chão e feito ele parar no pronto-socorro? Já fazem tantos anos que cometi esses crimes que eles já deveriam estar prescritos, mas eu mesmo não me deixei perdoar, ou porque não consigo, ou porque não quero.
Tomo a cachaça da noite, vou dormir e, no meio de um sonho de natal, com a família a rir e se divertir tirando fotos, começo a fazer pirraça. Meu pai cospe na minha cara que sou um moleque mentiroso, que ninguém gosta das merdas que falo, e enfim parte para cima de mim. Me acerta um chute, e é aí que eu acordei, assustado.
Me levantei e fui até a chaleira, coloquei água e, enquanto espero ferver, tenho uma ideia, ou melhor, tomo consciência dessa ideia; vou até a gaveta, tiro a faca e arranco meu pau. Meus dedos cedem e lhe deixam cair em cima do azulejo branco. A cozinha toda cheia de sangue, e sinto uma paz imensa: estamos quites.
Quando chego ao hospital, com uma mão pressionando o ferimento com um pano completamente vermelho, e na outra um saco plástico com meu membro decepado, uma enfermeira não se controlou e deixou escapar uma risada. Ao médico, inventei uma história em que fui atacado por uma namorada ciumenta durante o sono. Querem que eu faça boletim de ocorrência, e até levam um policial até mim, ainda encamado após a cirurgia de reconstrução, mas eu me nego a fazer qualquer coisa contra ela: no fundo sei que tive o que mereci. E sentindo as drogas venais baterem na minha corrente sanguínea, sonho com os anjos.




Uma pena não poder mandar audio aqui,
Se eu pudesse mandaria cantarolando a música tema daquele filme, Brazil
La la la la ... la lâ..