VOCÊ SE SENTE BURRO POR SER PIOR QUE ELES?
Esse talvez não seja um discurso motivacional.
1.
Não confie naqueles que parecem saber tudo e bem demais.
Principalmente se eles tratam os dons da linguagem, da arte, da escrita, da interpretação, etc., como faculdades inatas (ou ainda, capacidades naturais, disposições presenteadas pelos deuses aos naturalmente gênios e eleitos).
Embora tenham aprendido a defender sua superioridade intelectual com palavras muito belas e convincentes, acredite em mim: essa gente ou é profundamente alienada sobre o processo produtivo subjacente a tais espiritualidades superiores, ou então, muito pior: extremamente cínica.
2.
Quando esse gênero de discurso é proferido por gente que desde a mais tenra infância alterna entre o leite da babá e o capital simbólico dos livros e dos professores particulares, é compreensível. Afinal, é tática para assegurar as melhores posições aos seus filhos e eleitos, e assim, dar continuidade na reprodução do próprio poder. O aberrante é quando gente de origem mais humilde, verdadeiros arrivistas nesse universo da Cultura Superior, reproduzem esse discurso delirante da meritocracia espiritual (não culpo ninguém: muitas vezes é preciso adular gente melhor posicionada).
3.
As pessoas ricas e de boa família, desde muito cedo, desde a mais tenra infância, estão praticando e treinando as habilidades que seus ideólogos divulgam como se fossem seus dons e direitos naturais, e não consequência de uma formação que apenas a elite cultural e econômica pode fornecer de forma plena aos seus representantes.
Se você se sente sempre um passo atrás desses grandes gênios, se pensa que nasceu pra ser gauche na vida, porque você até tem boas ideias, bons pensamentos, mas lhe falta o jeito correto - talvez você precise aceitar um fato muito simples: você não teve essa formação senhorial e esclarecida, de gente que desde os doze anos sabe ler Espinoza e discute política internacional.
E não são só os verdadeiramente pobres, que desde muito cedo precisam trabalhar e não tem condição adequada para desenvolver a suposta espiritualidade elevada, os excluídos do capital cultural. Mesmo os filhos da classe média (de uma enfermeira, de dono de uma oficina, de baixos funcionários públicos ou professores) acabam excluído desse capital cultural que, nas boas famílias, se ensina de berço.
4.
Esses capitais culturais e simbólicos não se referem somente a conteúdos, mas também - e sobretudo - aos jeitos de se vestir e mover, a maneira de falar e escrever, os lugares aonde deve ir, as pessoas com quem deve se relacionar, e toda forma de saber que abre caminho para a distinção social. A falta de educação formal - por exemplo, o aprendizado de como escrever adequadamente uma dissertação, ou então, um ensaio crítico -, é então complementada por certa exclusão simbólica, que faz os arrivistas de todas as classes se identificarem, tão logo cheguem no espaço da Alta Cultura, e se percebam inferiorizados: tudo que é natural ao outro, precisa ser concebido como um artifício.
5.
Não é preciso ressaltar que os despossuídos de bens simbólicos são tão ou mais ressentidos que os miseráveis estritamente econômicos: qualquer um que teve uma trajetória de ascensão social irá reconhecer, na própria experiência, os sentimentos de desajustamento e inferioridade sistemáticos.
Se você é um graduando, talvez até um pós-graduando, e sente muita dificuldade em escrever seu TCC, ou quem sabe um artigo, se sente angústia por saber que vai ter que dar uma aula, ou porque teme ter falado alguma besteira semana passada, diante de uma pessoa ilustre e importante, talvez seja importante compreender que as faltas que você interioriza em si mesmo, na verdade, são parte de uma realidade social e exterior.
Irão dar exemplos de grandes exceções, é claro, de gente que veio dos bueiros mais sujos, e que agora, pelo próprio mérito e talento, ocupam as vagas mais celestiais. Afinal, as classes dominantes (e seus ideólogos) empregam constantemente esses mártires do esforço e da superação social como peça de propaganda para justificar a estrutura desigual que assegura vantagens genealógicas a algumas classes.
Portanto, se você não adquiriu os talentos e capacidades que para outros sujeitos vieram como que por natureza, isso não quer dizer que você seja estúpido ou incapaz, que suas faculdades mentais sejam inferiores. Essa desenvoltura espiritual e cultural que você deseja, embora exista realmente, nunca foi algo espontâneo, nunca foi obtido por revelação alguma; ao contrário, é o produto do trabalho, e demandou um largo tempo e orientação para ser produzida, mesmo nos sujeitos para quem ela surge como que por natureza.
O que se chama de natureza, afinal, não é nada mais do que alienação do trabalho produtivo e histórico verdadeiro.
6.
Se você não teve a fortuna de nascer sob a influência de uma boa família, e agora sente-se desorientado, sem saber como prosseguir, o primeiro passo é aceitar essa posição. Reconheça onde você veio e por onde pisa, para saber aonde e como você pode chegar lá aonde deseja estar. Se reúna com seus amigos, façam alianças de classe, se associe com as pessoas certas: e sobretudo, estude, treine, aceite críticas, se organize.
Se quiser ocupar o lugar dos herdeiros, precisará aceitar e compreender a sapiência que todo gênio nega aos pastores neoliberais: pois se deseja ascender, terá de trabalhar três vezes mais dos que já nasceram superiores.
MATRÍCULAS ABERTAS: Curso COMPLEXOS DO BRASIL: a psicanálise social de Gilberto Freyre
INSCRIÇÃO: https://forms.gle/kPtC2oJQQtFvcGyQA
Foi só no final do meu doutorado que a ficha caiu: Gilberto Freyre, além de historiador, sociólogo, antropólogo e escritor, também foi um psicanalista.
Claro, não um psicanalista ao estilo institucionalizado pelo divã freudiano e burguês, em que a análise é centralizada sobre o corpo de um sujeito particular.
Freyre, afinal, se propôs analisar o inconsciente de um corpo social: o brasileiro. Para isso, empregou métodos históricos e etnográficos, sempre desejoso de encontrar aquilo que, no correr da formação brasileira, teria sido recalcado, no fundo de nosso inconsciente. O que, afinal, nós resistimos ativamente para não lembrar?
Esse curso, chamado Complexos do Brasil, além de uma exposição sobre a obra de Freyre, e de forma geral, sobre a História e Sociologia de nosso país, é tambem é uma tentativa de ensaiar, dentro da teoria da psicologia, qual afinal seria o lugar das máquinas sociais na produção das subjetividades. Para isso, irei dedicar 4 aulas aos complexos sócio-psíquicos que Freyre identifica na formação do Brasil: a Casa-Rua, o Homem-Mulher, o Pai-Criança, e claro, o Senhor-Escravo.
Não é preciso ter conhecimento prévio no autor ou em qualquer assunto. São bem-vindos tanto os estudantes e profissionais, quanto os diletantes, que apenas desejam conhecer melhor sobre o Brasil em que vivem, e por que não?, sobre si mesmos. O valor do curso é de módicos 200 reais. A previsão do início é no segundo sábado de janeiro, 17/01.
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ótimo texto. só faltou lembrar que por mais politizada que essa elite seja, por mais Lélia Gonzales que se leia, ainda é a casa grande. o que significa que talvez seja mais produtivo investir em uma reorganização do espaço academico do que numa alienação que só gera um simulacro barato e conciliador à la Michel Alcoforado
texto muito bom, me lembrou a teoria/conceito desenvolvida por um filosofo (acho que era o bordieu mas não tenho certeza absoluta) sobre capital cultural e elite.
vou explicar com as minhas palavras (porque também não lembro a definição exata kkk) mas ,basicamente, ele dizia que a elite performa uma certa sabedoria enquanto os que não nasceram nesse contexto e se interessam pelos mesmos assuntos são os que acabam obtendo o maior conhecimento — porque eles são obrigados a se esforçar mais com seus estudos para realmente aprender.
vi isso em um video nas redes sociais que usava o exemplo de artistas frutos de nepotismo e artistas que não vem de berço artístico algum e são incríveis no que fazem.