RESSACA SEM FIM
Já não sei mais como viver sem o cansaço e a dor de cabeça de cada manhã: são elas que me dão bom dia e me colocam para dormir.
Anteriormente, em INIMIGOS DO FIM:
1. A CASTRAÇÃO
2. DEPOIS DO ENCONTRO
3. INIMIGOS DO FIM
4. NAQUELA VIAGEM EM QUE COMI A CASADA
5. POR QUE NÃO CONSIGO ESCREVER?
6. OS CONGRESSOS DOS IDEALISTAS
7. GOZO PLATÔNICO
8. TU NÃO NASCEU PRO CÉU
9. O SEXO DAS FLORES
10. RESSACA SEM FIM
Acordei às duas da tarde, de ressaca e com roupa de ontem. Fui no bar e almocei um prato feito de fígado com batata frita e bebi uma Coca Zero com gelo. Na televisão, passava jogo da Champions: Barcelona e Borussia Dortmund. O garçom, um paraibano de uns trinta e poucos anos chamado Robson, viu que eu mirava a televisão e disse, sem olhar pra mim, o sotaque carregado, que o primeiro jogo foi dois a zero pro Borussia Dortmund. Ficamos batendo papo sobre futebol até eu terminar de almoçar. Era um bom sujeito, esse Robson. Trabalhava ali desde sempre. Às vezes deixava uma gorjeta de cinco pratas pra ele. E ele, como se fosse um acordo, caprichava nas doses que eu tomava antes de ir. Naquele dia, tomei Campari com água tônica — estava de ressaca.
Saí dali e subi até a boca pra comprar uns pinos; os meus haviam acabado ontem, mas ainda tinha nariz pra cheirar essa noite. Fui para casa e fiquei lendo por umas duas horas a biografia de Friedrich Nietzsche. Filho de pastor que morreu quando ainda era criança, Nietzsche foi criado pela mãe. A relação com ela era problemática. Talvez isso explique sua misoginia. Dizem que amou mulheres; a verdade é que somente amou-as como objetos. Para todos os efeitos, Nietzsche era homossexual. E monogâmico. O único amor de sua vida foi seu velho professor de filologia. Um verdadeiro pai substituto, que colocou Nietzsche nos trilhos da vida. Arranjou pra ele uma entrevista na Universidade de Basileia, além do diploma de filosofia necessário pra que fosse admitido. Um verdadeiro pai, que impõe ao filho uma direção na vida. Impediu que seja ficasse vagabundo, pra cima e pra baixo, sem aspiração fixa, em noitadas sem qualquer nexo. Pelo que dizem, Nietzsche vivia feito boêmio; depois, como os evangélicos, pateticamente converte-se ao duro ideal do abstêmio. Dizia ser por conta de seu estômago, mas a verdade é que Nietzsche tinha a vontade fraca. Tão logo enxergou a sombra do pai substituto que sempre procurou, fez questão de entrar na linha do desejo paterno. Até quis lutar na guerra pra honrar seu país. Um sujeitinho patético. Sua obsessão com Lou Salomé foi apenas mais um documento de sua patetice. A primeira vez que uma mulher inteligente lhe deu atenção, uma mulher que não se interessava somente por solos de piano e bailes no jantar, caiu de quatro. Perseguiu Salomé por toda a Europa, até que ela decidiu se casar com um outro cara. Foi esse homem, incapaz de satisfazer sua libido se não com o auxílio do dinheiro, que pateticamente escreveu uma filosofia em que se proclamava senhor de si. Sua nobreza era uma tremenda extravagância de sua imaginação. Compensação de suas faltas tão latentes como homem, eu diria. Nunca se casou, assim como nunca realizou suas fantasias urânicas e gregas (alguém tão apaixonado pela vida grega como Nietzsche somente poderia se desviar da pederastia por muita repressão).
Contei essas e outras coisas para Cora enquanto bebíamos em um bar da Lapa. Ela ouviu e fez alguns apontamentos sobre minha psicanálise excessivamente falocêntrica. Dei de ombros e me justifiquei dizendo que, para um homem tão falocêntrico, somente uma psicanálise falocêntrica para dar conta. Bebemos algumas garrafas até que fomos pro seu apartamento no Flamengo.
Assim que entramos, apertei-a pelo pescoço. Atirei seu corpo frágil de boneca no sofá e esfreguei meu pau na sua cara. Com cara de assustada, ela começou a chupar. Enfiei fundo na garganta, e a saliva escorreu no chão. Beijei-a na boca.
Transamos por umas horas, tomamos banho e saímos para jantar com alguns amigos. Eram, no caso, duas escritoras detestáveis, com os quais, no entanto, estava tentando me aproximar pra tentar emplacar minha carreira literária. Luzia Light era uma transexual alta e arrogante que escrevia poesia de no máximo quatro versos. Não sabia se as pessoas fingiam gostar ou se realmente gostavam daquilo que ela escrevia. Se gostavam, pensava, é porque poesia se tornou decoração de parede ou coisa parecida. Nossa sensibilidade, entupida de tanta merda, não consegue sentir mais nada e se satisfaz quando encontra o jogo de palavras mais estúpido. O pior é que Luzia Light, além de má poeta, também era desagradável. Não deixava ninguém falar. Adorava ser o centro das atenções. Com ela na mesa, sempre estávamos a falar de sua vida ou de seus interesses. Ela ditava o rumo da conversa, como uma apresentadora ruim de podcast que não deixa seu convidado seguir o curso de seus pensamentos. E o pior é que Luzia Light era psicanalista. Não conseguia conceber como seria vê-la calada, auscultando o inconsciente de seus pacientes, contendo suas reações, calculando os estímulos que produziria.
A outra literata que estava com a gente se chamava Marta Terra. Admito que sua arte não me desagradava tanto. Era somente medíocre, como costuma ser medíocre a arte que transforma a pornografia e o choque em finalidade última. Formada na Academia de Belas Artes, era também pintora e havia sido adestrada em certo discurso deleuziano sobre o corpo e os afetos, que trazia à tona sempre que possível — fosse porque estava sempre lendo o Anti-Édipo (fazia uns dois anos que postava foto lendo-o na praia), fosse porque tudo que falávamos, por algum motivo, parecia lembrá-la da filosofia deleuziana, coisa que demonstra ou a pobreza de nossos temas ou a magnitude universal de Deleuze.
Aguentei com disciplina monástica quase duas horas sem cheirar pó. Pedi licença, fui até o banheiro e dei uma rajada generosa. Limpei com cuidado o nariz, não queria ser percebido. Luzia Light já havia me pedido um teco, e eu disse que estava fraco. Ela me olhou atravessado, mas disfarçou: sorriu, disse estar na fissura e mudou de assunto.
Voltei, e estavam discutindo sobre comprar pó e ir numa festinha; daí deduzi que havia dado pinta de que iria cheirar. Sempre que um viciado pede pra ir ao banheiro, desconfiam que ele vai cheirar. De qualquer forma, ligaram pra um dealer, e em menos de uma hora estávamos indo pra festa, abastecidos de pó e ketamina. Entramos de graça (Marta Terra era amiga da produção) e gastamos nossa onda.
Estava, como sempre, de óculos escuros. É minha forma de reduzir a ansiedade social que esses lugares lotados me causam. Odeio sentir que sou observado. Os óculos me produzem a ilusão de que estou invisível. Por causa dos óculos escuros, não percebi a aproximação de Pedro Antunes. Pedro Antunes era um velho conhecido. Um escritor de merda de quarenta e poucos anos que fingia estar na flor da idade. Só andava com gente vinte anos mais nova. Publicou alguns romances, era conhecido entre os editores da cidade, e isso era suficiente para os aspirantes a escritores lamberem seus pés. Como estava tentando ajudar minha carreira, decidi ser simpático com Pedro Antunes. Ele fedia a cigarro, e suas pupilas estavam do tamanho de moedas. Abraçou-me como se fôssemos bons amigos. Conversamos, e ele me convidou para o after no seu apartamento.
O after na casa de Pedro Fernandes estava uma bosta. Gente fumando maconha pelos cantos e fazendo aquela média com todo mundo. Artifício emocional, amizade por cortesia. Claro, como o verme que fui treinado a ser, também cobiçava as delícias daquele gorduroso corpo social. Era todo sorriso e, vez ou outra, contava alguma piada espirituosa.
Ah, mas o corpo social! Como é hábil em nos aproximar por motivos fúteis - os jogos de sorrisos e comentários divertidos, o mexerico sobre a vida alheia, as discussões estúpidas sobre o conteúdo pútrido que a indústria cultural nos serve de alimento... tudo isso me enoja... -; próximos por essas futilidades que somente servem para reprimir nossos impulsos selvagens e violentos, de amor e de ódio. Sou um animal selvagem, dissimulando civilidade, mas na maior parte do tempo prestando atenção nas mulheres, como se esperasse qualquer sinal receptivo pra começar um assunto que as levassem à minha cama. Espreitava cada uma, como se tivessem uma intenção oculta a ser desvendada... Um sorriso, uma palavra lisonjeira, um olhar ou sacudir de cabelos, tudo pode ser indício de que a fêmea deseja acasalar.
Procurava, de forma insistente e estúpida, um corpo belo para despojar as energias acumuladas durante toda a madrugada por estímulos sensoriais desregrados. Espiava nos rosto delas, no movimento suave do corpo, na forma com que se arrumavam e se portavam, tanto cálculo, tanta razão, mas para quê? Queriam também, simplesmente, acasalar? E se queriam, por que simplesmente não se entregar de uma vez, se sabiam que tantos estavam a espreita? É a velha história do histerismo, não é? Desejos reprimidos, desejos que aprenderam a reprimir, e que refluem nos sintomas mais doentios...
Me recrimino, é claro que me recrimino, por pensar assim, como homem. Sinto culpa, a despeito de tudo que desejo. Não queria pensar em mais nada, porque começara a pensar contra mim mesmo. Percebi então que estava cansado. Queria chegar em casa, bater uma punheta assistindo pornografia e esquecer de tudo que estava no meu corpo.
Sentado em um canto afastado, pedindo um moto-táxi, quando Pedro Antunes se aproximou.
- Já vai, meu amigo?
- Tá na minha hora, respondi sem tirar os olhos do celular.
Pedro Antunes olhou para um lado e para o outro, como se quisesse verificar que estávamos sozinhos. Se aproximou de mim e, mais baixo, falou em um tom de voz cuja gravidade me surpreendeu e fez com que levantasse os olhos:
- Poderia falar brevemente com você?
- Sobre?
- É um assunto delicado.
- Pode falar.
- Você é advogado, não é?
Imaginava que viria uma série de perguntas a respeito de instruções judiciais, coisa que já estava acostumado desde que me tornara, a uma década atrás, um estudante de direito. Não fiz questão de esconder o suspiro impaciente que soltei.
- O que você quer saber?
- Não é saber... Preciso contratar seus serviços...
- Meus serviços? Nunca exerci, Pedro. Sequer tenho carteirinha da ordem.
- É um caso especial. Eu preciso, na verdade, de um serviço… confidencial.
E Pedro Antunes passou ao seu estranho relato:
- Tudo começou no mendigo que encontrei na rua. Fedia pra caralho, estava imundo, aquele cheiro de suor preso no couro da pele dura, o pé todo preto, a poeira de toda cidade acumulada em seu corpo. Sabe-se lá onde andaram seus pés... quer dizer, pé, porque o outro havia sido arrancado. Um monte de ataduras, também imundas, marcadas de sangue, envolvia o membro aleijado. Sentado no chão, o mendigo se arrastou atrás de mim e me segurou pelo calcanhar... Dei um pulo, meu coração saiu pela boca. Aquele cheiro de carniça queimou minha narina. Ele me falou com uma voz carcomida:
— Tu, filho, me ajuda com uma moedinha?
E não soltou minha perna. Aquelas mãos imundas na minha perna. Me apressei a dizer que não tinha nada e tentei me afastar, mas ele segurou com uma força que achei inconcebível num corpo famélico, exterminado pelo capitalismo e pelo crack. Repeti que não havia nada, sem conseguir conter o tremor de minha voz.
As pessoas passavam ao redor, mas não faziam nada: fingiam que nada acontecia. Até onde vai a indiferença humana! Ignorar um sujeito imundo e descamisado, a fedentina sensível a mais de metro, se arrastando na calçada com um pé a menos, no encalço de um rapaz de boa aparência — estava voltando do colégio, devidamente uniformizado com minha camisa e calça branca, cuja alvura começava a absorver a sujeira da geologia citadina, as bostas de cachorro, as partículas de asfalto, pedaços de papel e grãos de vidro, gordura de comida, infinitesimais restos de cocaína, fumaça e urina, e todos mais componentes daquela forma indivisa de graxa contida naqueles dedos de unhas compridas e mendicantes com que ele agarrava a barra de minhas calças.
Tentei mais uma vez a negativa: disse para aquele pobre bárbaro, que na certa queria meu dinheiro para pagar sua voluntária escravidão do álcool, que não havia em meus bolsos qualquer quantia.
Eu e ele sabíamos que eu encenava uma mentira: vinha agora de uma lanchonete, em uma mão um enorme sanduíche de mortadela, e na outra — prova do crime! — uma nota de dez reais. Tratei de enfiá-la no bolso de trás de minha calça, mas seus olhos, arregalados, sem qualquer disfarce, miraram na mão agora vazia.
O avaro mendigo, entorpecido pela visão do ouro, me deu a oportunidade que tanto precisava: aproveitei que estava distraído e escapuli de suas garras de rapina.
Já me precipitava para longe dele. O mendigo percebeu que me perderia para sempre. Com um pé a menos, ele não teria a menor chance numa perseguição. Mas havia ainda um último truque: um urro desesperado, alto e comovente, que me fez parar e voltar atrás. Sim, eu voltei. Senti pena daquele pobre que, como eu e você, era somente um homem. Voltei até ele e, tomado de bons sentimentos, entreguei o dinheiro. Não conseguirei jamais descrever a alegria que aquele bom homem expressou diante de minha doação. Quis beijar meus pés, mas recuei, receoso de seus germes e cáries. Disse que não era nada, que não precisávamos de cerimônias:
— Vivemos em uma democracia, senhor. Eu sou um cidadão, tanto quanto o senhor. Não carecemos de expressões de hierarquia. Não há superior ou inferior aqui. Somos todos irmãos. Alguns nascem com a infelicidade da miséria, outros com a graça da sorte: isso é tudo. Por favor, levante-se”, levante-se”, não faça essa cena. As pessoas estão todas olhando...
Antes de me deixar ir, no entanto, o mendigo meteu a mão no largo calção, alguns números maior que o seu tamanho, retirou de lá um pequeno livreto e, de joelhos, me entregou como oferenda:
— É o que posso entregar-lhe, meu senhor. Tome esse presente por sua gentileza. Para mim, que não sei ler, isso não é nada. Mas, para um jovem de ar culto como o senhor, tenho certeza que será de grande utilidade.
Peguei o livro com um pouco de nojo, enfiei na mochila, e me retirei o mais rápido possível. Nem fiz questão de ver que livro era. Na verdade, o cheiro estava me nauseando, e meus sentidos não respondiam em sua razão. Como um animal assustado, só pensava em correr pra um lugar seguro. Fui andando, a respiração pesada, comendo aquele sanduíche de mortadela — o mendigo, tinha certeza, iria ainda me fazer entregar meu sanduíche de mortadela; agradeço por isso ao meu reflexo, ao meu instinto de sobrevivência, por me tirar logo dali antes dele ter ideia de pedi-lo.
O sanduíche estava delicioso. Até me fez esquecer o incidente. Entrei em casa alegre, assobiando um adágio de minha autoria.
Pedro Antunes então interrompeu sua narrativa para me assobiar a melodia ridícula.
Despreocupado, entrei em casa, tomei um banho e, quando fui abrir minha mochila para fazer minhas tarefas de casa, me lembrei do livro. Fui com um pedaço de papel higiênico pegá-lo, mas, para minha surpresa, ele estava como novo, inclusive com aquele cheiro agradável de papelaria. Só então parei para manejar e examinar o livro. Seu título achei enigmático: Nós Mortos. O nome do autor, nunca tinha ouvido falar. Um tal de Irgulino Alexandre Segundo. Era fino, livro de bolso. Não sei o que se apoderou de mim, mas adiei todas minhas tarefas para lê-lo. Passei dias debruçado, lendo e relendo aquela obra. Estava magnetizado. Encantado... Foi então, na lua cheia seguinte, que pela primeira vez eu tentei...
Não precisei dizer que não perdi muito mais tempo naquele papo de nóia do Pedro Antunes. Se estava prejudicando minha inexistente carreira literária? Sim, talvez estivesse, mas também estava cansado, de ressaca, sem uma gota de dopamina no corpo, a cabeça rachando de desidratada, e meu moto-táxi já estava me esperando lá fora. Cortei a conversa no meio e disse que tinha que ir porque minha namorada estava sem a chave de casa, mas que ele poderia me ligar de noite. Ele fez cara de irritado, como se eu tivesse sugerido alguma coisa estúpida:
— Ligar de noite não. Não, vamos nos encontrar.
— Encontrar só vou poder na... quinta.
— Na quinta então. 17h, naquele boteco na esquina com a Desembargador Isidro.
— Tá, pode ser — disse, sem ter a menor ideia de que boteco era esse.
— Combinado.
Ele apertou minha mão, olhando nos meus olhos com um sorriso que me pareceu conter alguma comoção. Enquanto ele sacudia minha mão, me imaginei como um empresário de multinacional fechando um negócio de corrupção com algum deputado. E quando ia soltar a mão de Pedro Antunes, fui puxado para um abraço desagradável, com direito a tapinhas nas costas.
Em casa, não demorei a dormir. Justina não havia chegado; na verdade, não voltei a vê-la até a quarta. Passou esses três dias sem sequer responder minhas mensagens. Aposto que tá com aquele imbecil pra quem está dando, pensei, e em seguida tentei fingir que não sentia ciúme por Justina estar também com outro, sem sucesso, é claro. Para compensar a súbita solidão que me acometeu, resolvi mandar mensagens para Leila Beatnik.
Leila era uma amiga de velha data. Fui apaixonado por ela nos anos da graduação. Ela estudava história, mas no meio do curso foi para psicologia. Hoje era psicanalista. Nos encontramos em sua casa, um apartamento velho na Tijuca, o piso de taco soltando em vários pontos, que dividia com duas amigas. Toquei a campainha e ela abriu a porta. Estava com um shortinho de pijama e um top de ginástica. Sua pele era morena e seu cabelo de um louro pintado em tom artificial de tinturaria sintética.
Lá dentro, sentada no sofá de calcinha e sutiã, estava uma das amigas com quem dividia a casa. Seu nome era Norah Lange. Alta, pele de brancura nórdica e uma magreza de costelas grandes e salientes que eu achava muito sexy. Era difícil não ficar observando o tempo inteiro. Ela estava fumando maconha com seu namorado, o Oliverio Girondo. Deitado com a cabeça numa ponta do sofá, ele estava de sunga de praia, exibindo seu corpo corpulento e peludo. Abriu um sorriso de chapado e acenou para mim. Cumprimentei ele, a namorada e fui com Leila Beatnik para seu quarto.
Não que meu desejo por Leila Beatnik tivesse morrido por completo. Estava, na verdade, como que hibernando, somente esperando o momento correto para despertar. Leila, no entanto, não permitia que esse momento correto chegasse. Sempre reiterava seu desgosto pelo sexo masculino — era lésbica e tinha o hábito de relembrar, sempre que tinha oportunidade, que na única vez que chupou um pau vomitou. Não por nojo, mas porque estava bêbada e também porque o sujeito com quem foi pra a cama enfiou o pau em sua goela. Como resultado, os restos do cachorro-quente que havia comido mais cedo foram parar em cima dele.
Leila Beatnik, fospara economizar nos detalhes, fosse para preservar sua fama de misantropa, esquecia de mencionar tais circunstâncias, e reforçava sua aversão natural ao gênero masculino. Naquele momento não foi diferente: fez questão de me receber reclamando de Oliverio Girondo, de como era incômodo ter que ver todo dia aquele corpo peludo largado no sofá que ela havia herdado da avó.
Já à vontade, deitado na cama de Leila, comentei distraído que achava Girondo simpático, e para quê? Leila me fuzilou com os olhos, com aquele desprezo que só ela sabia demonstrar e que desde o início fez com que eu me apaixonasse. Imediatamente tentei me corrigir:
— Claro, mas eu não passo muito tempo com ele, você deve ter suas razões, suas perspectivas...
— Parece que ele mora com a gente! O tempo todo aqui em casa! E não lava uma louça! Faz aquele suco de groselha concentrado nojento, enche o copo de gelo e não repõe as formas! E outro dia comeu meu iogurte natural! Tenho certeza que foi ele!
— É, não sei o que a Norah vê nesse tipo. E ainda é feio.
— Quero ele fora da minha casa.
Procurei então mudar de assunto. Perguntei do livro novo dela, e me disse que não tinha motivos para escrever. A literatura acabou, Andy, ela disse. Tentei relativizar, mas foi tão certeira e convincente em sua réplica, que me pareceu mesmo cruel: como poderia negar assim meu desejo de se tornar escritor, e ainda atribuir a negativa não a ela, mas sim ao real?
Tratei novamente de mudar o assunto. Vi que Nietzsche e o círculo vicioso, do Klowssowski, estava em cima de sua cama e peguei para folhear.
— Está lendo?
— Não. Foi hoje cedo. Apareceu uma barata no branco da parede. Foi tudo rápido demais. Sem pensar duas vezes, arranquei o livro da estante e acertei em cheio no inseto. Só ouvi o crack da casca se partindo, e meu livro ficou todo cagado.
Então percebi que o inseto morto ainda estava ali, as antenas, as patas, aquela gosma que serve de sangue para os insetos, tudo imprensado contra o vermelho da capa, feito personagem de desenho animado depois que um rolo compressor passa por cima deles.
Larguei o livro tentando disfarçar o nojo. Leila mexia no computador, indiferente. Me explicou estar respondendo alguns clientes, remarcando datas e confirmando atendimentos, e quis saber das novidades. Falei primeiro que não havia nada, mas em seguida resolvi fazer uma confissão.
— Aconteceu uma coisa, na verdade.
— O quê?
— Bom, é uma história meio engraçada...
— Pois me conte então.
— Eu dei o cu para uma travesti.
— O quê?
— Era um sábado e eu estava bêbado. Com muito tesão.
— E aí?
— Aí encontrei ela na esquina.
— E ela comeu seu cu?
— Isso.
Depois de alguns segundos de silêncio:
— E aí?
— E aí o quê?
— Como foi?
— Foi gostoso, mas sei lá.
— Sei lá o quê?
— Foi bom, mas fiquei com um sentimento de arrependimento depois.
— Por ter dado o cu?
— Não, por ter custado duzentos reais.
— É, duzentos reais não é pouco dinheiro.
— Mas sempre quis dar o cu, você sabe.
— Sei.
— E estava bêbado.
— Você já falou.
— Era uma ou duas da manhã na Lapa, a noite parecia ter esgotado todas as probabilidades. Só me restava me recolher em minha casa, e era isso que planejava fazer. Me despedi dos meus amigos e, no entanto, resolvi vagar pelas ruas laterais, aquelas em que nunca passamos, e que durante a noite ficam vazias e sombrias. O chão de paralelepípedo velho, os sobrados de séculos atrás, era um cenário que acrescentava um quê de delírio e fantasia à minha madrugada. E então resolvi entrar em um botequim, a única luz acesa naquela rua escura, e pedi um trago de conhaque. Já estava caindo de bêbado, aquele trago não me desceu bem. Paguei e corri até a esquina pra gorfar. Levantei a cabeça, tonto, e ela veio em auxílio. Digo a você, Leila, que ela foi como uma Madalena diante das chagas de Cristo. Um senso de bondade que não se encontra em qualquer esquina. Quantas vezes na vida sofri sem ninguém demonstrar qualquer compaixão? Sabe como sou sozinho, e sabe também como o menor gesto de carinho ou me espanta ou me atrai. Talvez fosse o álcool pesado em minha cabeça, a gastrite agitando-se em minhas entranhas, a carência sexual que assolava minha alma, mas ela me surgiu não como uma prostituta, de vestido vulgar e batom vermelho, mas como um anjo bom. Nos anjos mais puros, o pecado é o único adorno possível. Foi tão boa comigo. Perguntou se eu estava bem e eu disse que mais ou menos. Me comprou uma garrafa d’água e um chocolate Nestlé — disse que eu precisava de glicose. Comi devagar, enquanto conversávamos. Me contou seu nome, era Sônia, e que estava na capital para estudar veterinária. Era uma alma simples, minha Sônia, ao contrário dessas garotas extravagantes que tentam nos conquistar com indiferença e poses para fotos. Ela ria por nada, achava graça nas vírgulas do que eu falava, no tom de minha voz. Tinha um cheiro suave de sabonete barato, mas que gostei de sentir. Não lembro tanto porque o álcool dominou minhas memórias, mas fomos pra casa dela, um kitnet que ficava ali perto. Ela me deitou na cama, carinhosa, e tirou minha roupa como se eu fosse um menino. Eu não sabia se estava acordado ou dormindo, só que ela começou a dar beijos molhados no meu corpo, do calcanhar ao pescoço, e quando não esperava, meteu seu pau na minha boca. Sabe que não tenho experiência em chupar paus, mas naquele momento senti que despertei um instinto ancestral, filogenético, como se tivesse herdado uma garganta mole e permissiva, que ela usou e usou como se fosse um brinquedo. Às vezes eu cuspia, minha baba escorria, e ela prontamente, depois de um intervalo cuidadoso, voltava a enfiar. No escuro, tudo que havia eram os barulhos da minha boca cheia de carne, até que sua voz baixa e grave me ordenou virar. Virei e esperei, tremendo de nervoso. E foi então que ela me pincelou o cu, gelado de lubrificante. Quase pulei de susto. Parecia a pele gélida de um réptil. Admito que quis desistir, mas ela me segurou, disse para eu ficar quietinho, e eu obedeci. Não sei quanto tempo demorou, mas ela me disse que iria gozar. Puxou a camisinha fora e gozou nas minhas costas. O líquido caiu quente e ela foi embora, ao banheiro, se lavar, enquanto fiquei ali deitado, sem ar, sem ideias.
— Parece que valeu a pena.
— Não sei. Duzentos reais. E estou sem dinheiro.
— Ainda não achou emprego?
— Não, e meu seguro está quase acabando. Tenho dinheiro até mês que vem.
— Vai achar, amigo.
Ficamos conversando mais um pouquinho. Ela me disse que gostava de dar o cu, e eu disse que não gostava do cheiro de látex vagabundo. Estávamos trocando essas intimidades quando, com alarde, Oliverio Girondo abriu a porta.
Entrou num desespero, procurando seu gatinho, Dadá. Depois de Leila Beatnik colocar ordem no quarto, encontramos Dadá deitado dentro do armário, na mais alta prateleira. Oliverio Girondo suspirou aliviado e começou a conversar com seu gatinho como se fosse um neném. Fazia falsete e falava no diminutivo. Fiquei em silêncio, Leila Beatnik também. Ele levou o bichano para fora. Eu olhei a hora. Disse que precisava ir, que tinha que escrever. Leila Beatnik debochou por eu ainda escrever. Feito um idiota, concordei, rindo, com sua amistosa humilhação: não tenho jeito, disse, dando de ombros. Nos abraçamos, beijei o topo de sua cabeça e saí. Fui para um bar e pedi duas doses de cachaça. Virei tudo em menos de cinco minutos. Meio tonto, subi as escadas do meu prédio. Tomei banho, deitei na minha cama pelado e fiquei assistindo vídeos no meu celular até a hora de dormir, sem deixar de, vez ou outra, cogitar ir na boca comprar pó.
Na minha cabeça, eu não preciso ser bom, mas mesmo assim há uma vozinha que sopra nas orelhas de minha metafísica palavras intrusivas que dizem: Andy, seja bonzinho. Não sei, talvez seja culpa do catolicismo, das sessões de penitência a que fui acostumado desde menininho.
Calo esses pensamentos com um sorriso ensaiado para a garçonete velha e esquelética, uma verruga em cima do beiço com pelinhos e voz entediada me perguntando meu pedido. Pego de surpresa, gargarejo palavras insignificantes e peço o cardápio para ganhar tempo. Ela volta, e sem olhar peço a mais barata, por favor, se possível a mais gelada. Ela traz e fico a beber aquele suco insosso de trigo. No terceiro copo, começo a gostar do sabor.
Olho a hora, contrafeito, mesmo que não tivesse nada de melhor para fazer em casa. Talvez seja o álcool, mas estou até alegre para discutir aquelas ideias sem pé nem cabeça de Pedro Antunes. Abro o celular e remexo no subsolo de minhas redes sociais para passar o tempo. Quando estou pedindo a segunda cerveja, chega Pedro Antunes, esbaforido, de camiseta do Botafogo e shorts de academia. Um enorme headphone na cabeça, todo suado.
— Estava correndo na academia
— Claro, claro. Cerveja?
— Por favor.
Ele chama a funcionária, que traz um copo americano. Brindamos.
— Pelo hábito de celebrar, mesmo sem ter nada a ser celebrado.
Vasculho rapidamente um assunto na minha cabeça, mas ele foi mais rápido:
— E seu livro?
— O que tem?
— Quando sai?
— Na hora certa.
— E existe hora certa pra literatura? A arte não espera, nem se demora. É sempre extemporânea.
— Às vezes ela só é estúpida, estropiada. Na hora certa será a hora certa.
— Precisa tirar seus rascunhos da gaveta, Andy. Precisa retribuir toda a literatura de qual você rouba há tanto tempo. Pagar sua dívida com a história universal.
— O capitalismo está indo longe demais. Agora até a história universal possui sistema de crédito.
— Andy, meu rapaz, a vida é um sistema de dispêndio. Acha mesmo que podemos viver sem esse acúmulo maldito? E acredite: a herança verdadeira, aquilo que teu avô deixou ao teu pai, que teu pai deixou para ti, não são os apartamentos, os móveis, a fortuna, mas sim as dívidas, que nunca terminam de ser pagas em uma única existência, e que toda sua descendência se encarregará de pagar e multiplicar.
Aquela conversa estava começando a me incomodar. Revirei os olhos, tentando disfarçar meus sentimentos. Bebi um longo gole de cerveja. Ironizei a precariedade de minha herança: nenhum apartamento, somente neuroses obsessivas. E Pedro Antunes olhou para mim com um sorriso de quem se acha superior, de quem decifrou alguma coisa na vida que ainda não compreendi.
Essa é sempre a posição da qual Pedro Antunes observa o mundo. Acredita piamente na sua própria genialidade: é estupidez que perdoamos com facilidade quando em rapazinhos nos primeiros anos de escola, mas em homens de barba feita e anel de casamento no dedo, a presunção deixa de ter os gracejos da inocência para se aparentar à falta de caráter.
Continuou a insistir que eu deveria publicar de uma vez um livro, que não era bom deixar os rascunhos na gaveta. Pensei em dizer que meus rascunhos eram perfeitamente públicos, que tudo que escrevia estava em meu blog, e que minha produção literária era muito mais vasta, contínua e significativa do que os romancinhos dele, mas preferi calar mais uma vez e mudar o rumo daquela conversa estúpida:
— Chega desse papo. Não vim aqui pra receber conselho. O que você queria comigo?
O semblante de Pedro Antunes se alterou de súbito. Saiu daquele ar bonachão, de quem acha graça em tudo, e se tornou sério. Passou mais de trinta minutos me contando com mais detalhes a história de seu encontro com o mendigo, o presente misterioso recebido, quando seu telefone tocou. Ele atendeu:
— Alô?
A pessoa falou algo do outro lado da linha que emocionou Pedro. Ele não se conteve, lágrimas caíram de seus olhos. Ficou alguns segundos repetindo “maravilhoso”, “meu deus do céu”, e expressões de contentamento. Disse que estava resolvendo um negócio, mas que já iria terminar. Acrescentou, com voz doce:
— Te amo, meu amor, e desligou.
Fiquei em silêncio, com o copo vazio em mãos.
— Meu filho recém-nasceu, Andy.
— Filho?
— Meu e de Lesbos.
— Ah, não sabia que vocês… estavam grávidos.
— Barriga de aluguel, digamos.
— Ah, sim. É, parabéns. Melhor ir para a maternidade.
Ele assentiu, pagou toda conta e, antes de ir embora, me entregou um envelope. Dentro, havia uma fita VHS. Antes de perguntar o que era, ele já havia se escafedido.
Terminei a garrafa, pedi duas doses de cachaça, bebi de uma vez e fui para casa. Me joguei no sofá, sem acender a luz, e coloquei a fita VHS na televisão. Apareceu um letreiro na tela preta: Nós Mortos, dirigido por Lesbos de Andrade e escrito por Pedro Fernandes, e a película começou.
CONTINUA





